Todos os dias a rotina começa cedo para o casal Lurdes Aparecida Moreira e José Goes, na propriedade que fica no assentamento Índio Galdino, em Ortigueira (PR). O trabalho para ordenhar as vacas ganhou mais intensidade de um ano para cá, desde que o casal viu a produção de leite triplicar após a adoção da metodologia de “piqueteamento”, prática de manejo sustentável, na qual a propriedade é dividida em várias áreas menores para equilibrar o ciclo de pastagem dos animais. O método foi desenvolvido pelo Programa Matas Sociais – Planejando Propriedades Sustentáveis, promovido pela Klabin em parceria com a Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

O programa possibilitou aos produtores cuidar e investir na própria terra e na produção pecuária, gerando autonomia e alternativa de renda. Antes de entrar no programa, a produção diária alcançava 10 litros de leite e era vendida para os próprios vizinhos. Com a adoção do sistema, sugerido pelos consultores do Matas Sociais, em um ano, o casal viu a produção triplicar e ampliou a venda do leite para um laticínio. “No começo, achávamos que não iria dar certo, que nossa propriedade era pequena e não seria o suficiente. Mas deu certo e melhorou muito, pois agora trabalhamos com o que é nosso e não na terra de outras pessoas. Queremos investir ainda mais nisso”, conta José.

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Vizinho à propriedade do casal, o agricultor João Carlos dos Santos Benício também aposta na produção de leite, que lhe garantiu um ganho mensal. “Minha principal renda era a venda de bezerro duas vezes ao ano, porém com o leite, tenho algo todos os meses. Aos poucos estou me adaptando ao sistema e, no futuro, quero investir em inseminação artificial de animais”, comenta.

Os produtores do assentamento Índio Gaudino, em Ortigueira, tinham como atividade principal a bovinocultura de corte, ou trabalhavam fora de suas terras, como funcionários em outras propriedades. A possibilidade de autonomia chegou por meio da iniciativa dos consultores do Matas Sociais, que diagnosticaram o potencial da região e identificaram a vocação para a produção leiteira, entre outros cultivos, como explica o consultor do Sebrae e parceiro da Klabin no projeto, Lindomar Schimitz “muitas famílias tinham a base da renda com o trabalho fora da propriedade. Agora isso está mudando. Estão voltando e investindo na produção própria, sendo o leite atualmente o carro-chefe desse processo. Futuramente, vemos a banana com o mesmo potencial”.

O sistema de manejo da propriedade e do gado leiteiro indicado pelos consultores do Matas Sociais é inspirado no sistema Voisin, desenvolvido na década de 1950 e bastante utilizado nas regiões de alta produtividade leiteira no Estado de Santa Catarina. Nessa prática de manejo sustentável, a propriedade é dividida em várias áreas menores, chamadas de “piquetes”. Os animais revezam a permanência nesses espaços e o gado se alimenta do pasto disponível no local em que está, enquanto o pasto do ambiente seguinte se recompõe, formando assim um ciclo de pastejo equilibrado.

“Esse é um sistema sustentável de produção, uma vez que o animal consegue ficar constantemente bem alimentado, contribuindo para o aumento da sua produtividade. Além disso, a propriedade tem condições de restabelecer a qualidade do pasto de forma natural”, comenta Schimitz.

Cada propriedade é avaliada para que a divisão dos piquetes seja feita considerando a topografia dos locais, a quantidade de animais, as necessidades de recuperação da vegetação, entre outros aspectos, conforme explica o consultor da Klabin, Paulo Vicente Angelo, “a produção leiteira é incentivada seguindo um tripé de desenvolvimento, que inclui melhorias na alimentação dos animais, por meio de ações e investimentos em pastagens, melhorias no manejo com os piqueteamentos, irrigação e gestão de parasitas”. Além disso, a consultoria também orienta os produtores a buscarem incrementar a produção, como o melhoramento genético por meio da inseminação artificial.

A maior concentração dos produtores de leite do Programa Matas Sociais, em Ortigueira, está nas localidades de Lageado Bonito, Palmital, Assentamento Índio Gaudino, Natingüi e Sapé. A expectativa dos consultores é fortalecer essa rota do leite aumentando a produção de quem já fabrica e angariando novos produtores. “Trabalhamos nessa frente há dois anos, com a ideia de duplicar a produção a cada ano. Em Lageado Bonito, por exemplo, elevamos a produção de dois mil litros ao dia para quatro mil litros. Agora, queremos produzir seis mil litros ao dia até o final do ano”, afirma Angelo.

Quem já comprovou os ganhos do sistema de piqueteamento vislumbra mais oportunidades, como os produtores de Lageado Bonito, Roberto Donizete Bento e Alessandro Eduardo Bento. Eles foram pioneiros na implantação do sistema no município, e há dois anos mantém uma média de produção de 350 litros de leite por dia e agora avançam nos melhoramentos. “Seguimos investindo na melhoria da pastagem e, consequentemente, no desempenho dos animais. Também já estamos fazendo inseminação artificial, cuja principal vantagem é a garantia da qualidade com a procedência dos animais”, afirma Alessandro, que também é presidente da Associação de Produtores Rurais e Moradores de Lageado Bonito (Apromolb).

As propriedades participantes do programa também estão recebendo auxílio para se adequar ambientalmente, realizar a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP), implantar ações de conservação dos recursos naturais e proteção de nascentes, além de melhorar o aspecto paisagístico das suas propriedades. Estas ações são desenvolvidas pelos consultores da Apremavi, que buscam trabalhar junto ao produtor a conscientização e o respeito ao meio ambiente, principais pilares da sustentabilidade de uma propriedade rural.   “Nós vamos até as propriedades para averiguar o local, fazemos o mapeamento e um diagnóstico, tudo dentro da legislação, para que exista um trabalho sustentável, que faça uso consciente da terra e gere renda para as famílias”, afirma Emílio André Ribas, consultor da Associação.

Matas Sociais
Iniciado em maio de 2015, o programa “Matas Sociais – Planejando Propriedades Sustentáveis”, promovido pela Klabin no Paraná, incentiva a agricultura familiar e auxilia pequenos produtores rurais dos municípios de Ortigueira, Imbaú, Telêmaco Borba e Reserva em todas as etapas de produção, desde a obtenção do Cadastro Ambiental Rural (CAR) até a comercialização da produção nos mercados locais, passando pela diversificação da propriedade e incentivo ao associativismo/cooperativismo.

Em quase quatro anos de atuação, já são 334 produtores rurais atendidos e mais de 50 ações de capacitação envolvendo manejo agrícola, pecuária, produção orgânica e educação ambiental, entre outras. A iniciativa conta com a parceria da Apremavi e do Sebrae.

Em 2017, o programa foi reconhecido com o “Selo SESI Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, que valoriza ações que contribuem para o desenvolvimento social no Estado do Paraná utilizando como base os ODS, da ONU; e também foi vencedor em 2018 do 25º Prêmio Expressão de Ecologia, a maior premiação ambiental e tradicional da região Sul do Brasil.

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